A classificação atual do Transtorno do Espectro Autista (TEA) está sob intenso escrutínio da comunidade científica internacional. Recentemente, um grupo crescente de pesquisadores e clínicos começou a questionar se a terminologia de ‘espectro’ — consolidada na última década — é suficientemente precisa para descrever as realidades biológicas e sociais de indivíduos com perfis tão heterogêneos. O debate central gira em torno da eficácia de agrupar, sob o mesmo guarda-chuva diagnóstico, pessoas com altas habilidades cognitivas e autonomia e aquelas que possuem deficiências intelectuais severas e dependência total de cuidados.
Historicamente, a unificação de diferentes diagnósticos, como o Transtorno de Asperger e o Autismo Clássico, no conceito único de espectro (introduzido pelo DSM-5 em 2013), teve como objetivo facilitar o acesso a serviços e reduzir o estigma. No entanto, críticos da abordagem atual argumentam que essa generalização pode estar prejudicando a alocação de recursos e a pesquisa científica. De acordo com especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo, a falta de distinções claras dentro do diagnóstico dificulta a criação de políticas públicas direcionadas e o desenvolvimento de terapias personalizadas para cada nível de suporte.
Uma das propostas mais discutidas, inclusive mencionada pela Comissão Lancet sobre o futuro do cuidado e pesquisa clínica em autismo, é a adoção do termo ‘autismo profundo’. Essa nomenclatura seria reservada para indivíduos que requerem assistência constante para atividades básicas da vida diária, frequentemente associada a limitações graves na comunicação verbal e ao comprometimento cognitivo. A intenção não é segregar, mas garantir que as necessidades desse grupo específico não sejam invisibilizadas por uma narrativa de ‘neurodiversidade’ que, por vezes, foca majoritariamente em indivíduos com menor necessidade de suporte.
Por outro lado, o movimento da neurodiversidade e diversos grupos de autodefensores expressam cautela quanto a essa fragmentação. O receio é que o retorno a divisões diagnósticas rígidas possa ressuscitar preconceitos antigos ou limitar o acesso a direitos conquistados por aqueles que seriam classificados em categorias consideradas ‘leves’. Para esses grupos, o espectro não deve ser visto como uma linha reta, mas como um conjunto circular de características onde cada indivíduo apresenta diferentes intensidades de desafios em áreas como interação social, processamento sensorial e comportamento.
O desafio para a medicina e a psicologia moderna reside em encontrar um equilíbrio entre a precisão clínica e a inclusão social. Enquanto a ciência busca biomarcadores que possam segmentar melhor o autismo para fins de tratamento, o debate ético continua a moldar como a sociedade compreende e acolhe as diferenças neurológicas. A discussão sobre a validade do conceito de espectro sinaliza uma nova fase na compreensão do TEA, onde a individualização do cuidado parece ser a palavra de ordem para os próximos anos.
